Escrevi o texto abaixo há quatro anos, mas me parece que talvez ele ainda tenha alguma utilidade nos dias de hoje, em 2010. Lembro de tê-lo enviado via e-mail a vários políticos, jornalistas, comunicadores etc. Naquela época eu ainda nem fazia idéia de que existia o Foro de São Paulo, por exemplo, até porque eu nunca havia ouvido falar de Olavo de Carvalho, nem de Reinaldo Azevedo, entre outros. Eu sabia apenas que o homem simples no qual pela primeira e última vez acreditei em 2002 - Lula - havia se revelado, indiscutivelmente, o maior e mais grosseiro mentiroso a corromper o povo e a envergonhar "a história deste país" perante todo o mundo.
Por isso, para mim, Mário Oliveira foi a melhor surpresa de 2010. Me fez lembrar que talvez o Brasil ainda tenha solução.
Mas vamos ao que escrevi em 2006:
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COSTUMES - Por enquanto, o Brasil ainda tem solução.
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Observando-se friamente os fatos, analisando-os imparcialmente, verifica-se que o Brasil está morrendo. A decadência do país é ampla, concreta, e o futebol acaba de coroá-la, tornando-a inquestionável perante as pessoas simples do povo, inclusive.
Acredito que, por enquanto, o Brasil ainda tem solução. Mas, antes que o Brasil "se acabe", é preciso agir. E, antes de agir, é preciso pensar. Pensar nas "causas e efeitos no Brasil do futebol e da politicagem".
Em 2006 a sociedade brasileira finalmente se viu obrigada a reconhecer que cada povo tem a seleção de futebol que merece. Afinal, uma seleção, em vários aspectos, sintetiza e reflete a mentalidade que prepondera em seu país.
Numa mesma tarde, Brasil e Inglaterra foram eliminados da Copa. Mas de formas incrivelmente diferentes:

A Inglaterra, mesmo com um jogador a menos, e mesmo sem seus craques Owen e Beckham, perdeu lutando ate o fim; lutando pela Cruz de São Jorge em sua camisa e em sua bandeira, pedindo a Deus por sua senhora já velhinha - cantando "Deus salve nossa graciosa Rainha!". Porque a nação inglesa procura se amar. Porque a nação inglesa se interessa por seu próprio futuro. Mesmo tendo relativamente pouco território, a nação inglesa construiu um Estado admirável, transformando uma ilha num pequeno grande país.
O Brasil perdeu inerte, embriagado pela própria ilusão, mentindo a si mesmo, vivendo num faz-de-conta, desconhecendo até a letra do próprio Hino Nacional. Sem falar na incompetência do Presidente Lula e do craque Ronaldo, que se acusaram publicamente. Sem falar no excesso de superstição do veterano Zagallo. Sem falar no desprezo da equipe a críticas e ao ídolo Pelé. A derrota da seleção, da CBF, do Brasil como um todo, foi completa e foi merecida. Porque na sociedade brasileira prevalecem os inescrupulosos, que destroem as expectativas da minoria decente que ainda resta. Porque o Brasil ainda não tem "nação", nem amor a nada. A vida humana, no Brasil, custa barato. Os demais valores da humanidade, no Brasil, não valem nada. Fora raras exceções, o Brasil tem - e só em Copas do Mundo - apenas falsos patriotas. E tem um bando de nacionaleiros, como diria o sábio Roberto Campos.
Diante disso, não causa surpresa o sorriso de jogadores, políticos e turistas, todos se dizendo patriotas, nas ruas européias. É bem mais fácil sorrir no civilizado primeiro mundo, longe das injustiças do Brasil, longe das feias metrópoles brasileiras, sitiadas por periferias horríveis, onde brasileiros apavorados se amontoam, numa vida humilhante. Dos brasileiros que vão ao primeiro mundo, há uns poucos que se interessam pelo Brasil, e há alguns que vão em busca de emprego com remuneração justa, mas, a grande maioria se comporta como crianças deslumbradas num parque de diversões. Dos brasileiros que vão ao primeiro mundo, a grande maioria abusa da hipocrisia ao elogiar lá o que não pratica aqui.
Em 2006 a sociedade brasileira finalmente se viu obrigada a reconhecer que cada povo tem o governo que merece. Agora não adianta procurar mais um bode expiatório improvisado.
Pode-se dizer que antes foi mais ou menos assim: entre 64 e 84 diziam que a culpa era "dos militares e dos EUA"; entre 84 e 2004 diziam que a culpa era "dos poderosos e da elite". Mas, em 2005, com o mensalão, a máscara caiu.
E em 2006 uma pesquisa definitivamente desmascarou também a sociedade brasileira, revelando que não toda, mas parte significativa dela, de fato é cúmplice da corrupção. Antes parecia apenas vítima, mas agora tem-se a certeza de que a culpa é "da própria sociedade". E isso deve ser dito; não pode ser ocultado nem - jamais - esquecido, por mais vergonhoso que seja.
A sociedade não pode se deixar transformar em agressora de si própria. A sociedade não pode fazer o papel de bandido. E também chega de fazer o papel de vítima: a sociedade deve ser sempre o mocinho. É necessário mudar a postura desde já, pois se o passado por vezes envergonha, que sirva de aprendizado no presente, para o futuro.
É necessário prestar atenção às causas e efeitos no Brasil, que, de forma didática e simplificada, compõem o seguinte círculo vicioso:
1. Em vez de a pessoa sentir-se útil a si e à coletividade, a dificuldade de sobreviver na tão injusta sociedade brasileira estimula o individualismo, que mantém e é mantido pela proliferação dos MAUS COSTUMES, os quais contrariam a civilidade e incentivam a ignorância, a qual garante o analfabetismo político e o continuísmo.
2. Há muito tempo o Brasil, em vez de cargos de carreira, com ingresso mediante concurso, cultiva um EXCESSO DE CARGOS POLÍTICOS (eletivos ou não), que facilitam tanto o aparecimento de oportunidades de corrupção quanto a ocorrência de falhas por parte do Estado, como nas questões do nepotismo e da impunidade.
3. Ao invés de resultados, obtidos por meio de qualificação e profissionalismo, os governantes e legisladores, cada vez mais amadores, apresentam MÁ GESTÃO, tanto por incompetência quanto por desinteresse, como ocorre nas questões dos juros, impostos e desvios de dinheiro público.
4. Em vez de planejamento de longo prazo, a ciranda política no Brasil faz com que, a todo instante, projetos sejam abandonados inacabados, o que é típico da DESESTRUTURAÇÃO DO ESTADO, nítida no excesso de greves de serviços públicos já péssimos, e na inversão de papéis nos atos dos Três Poderes.
5. Em vez de governos estáveis e legislação inteligente, para viabilizar crescimento econômico, para viabilizar desenvolvimento sustentável, o Estado brasileiro, moribundo, tem propiciado o ENFRAQUECIMENTO DA ECONOMIA, cujos efeitos atingem inclusive os mais privilegiados, que apelam para o mau uso da lei e para o mau uso dos contatos com o poder público para conseguirem manter seu status.
6. Em vez de uma vida estável e planejada, a decadência econômica impõe uma BAIXÍSSIMA QUALIDADE DE VIDA, marcada pela morte precoce por falta de recursos ou por homicídio, marcada por crimes e engabelação, por subemprego e escravidão, por desrespeito ao meio ambiente, e por perda do ânimo até entre os adolescentes, que não têm mais expectativas tampouco sonhos.
1. Em vez de a pessoa sentir-se útil a si e à coletividade, a dificuldade de sobreviver na tão injusta sociedade brasileira estimula o individualismo, que mantém e é mantido pela proliferação dos MAUS COSTUMES, os quais contrariam a civilidade e incentivam a ignorância, a qual garante o analfabetismo político e o continuísmo.
As mais indefesas vítimas desse círculo vicioso são as crianças e os jovens, que acabam desejando rumos incertos nas portas de supermercados, nos semáforos, no futebol, nas passarelas, nos palcos, na prostituição, no crime, na religião, na política... E os poucos que concluem um curso superior raramente conseguem estágio ou estabilidade. Não é à toa que os concursos públicos são disputadíssimos, cada vez mais. A única coisa barata, no Brasil, é o direito à vida, que às vezes se perde pelo equivalente a cinco dólares. É por isso que alguns brasileiros adultos desistiram e foram definitivamente para outros países, inclusive países de terceiro mundo. E naqueles países, alguns "ex-brasileiros" discretamente se afastam ao perceberem alguém falando português do Brasil, tamanha a desilusão com a "ex-pátria" injusta.
Diante do dantesco quadro nacional, descrito no círculo vicioso que caracteriza uma verdadeira "era dos absurdos" no Brasil, percebe-se que a principal solução é o que há de mais básico na vida civilizada: BONS COSTUMES, que, de modo simplificado, resumem-se em "não prejudicar ninguém" e "respeitar a natureza", sempre dando e seguindo bons exemplos. E a educação, desde a infância, na família e na escola, deve coroar esses costumes.
Um bom costume respeitado vale mais que mil leis ignoradas, de modo que, quanto mais bons costumes são respeitados, menos leis são necessárias. Sabe-se que o Brasil, infelizmente, tem sido exemplo de que não adianta criar milhares de leis quando a sociedade "não gosta de cumprir leis". Acontece que, quando não se respeitam os bons costumes, impõe-se a ordem pela lei; e, quando não se respeita a lei, impõe-se a ordem pela força. Portanto, enquanto há tempo, a sociedade precisa adquirir maturidade para regular a si própria o máximo possível por meio de bons costumes, para que menos leis - e melhores - sejam criadas e respeitadas.
Para começar a enfraquecer o círculo vicioso brasileiro é necessário que cada pessoa tente identificar com quais causas e efeitos convive no seu dia-a-dia mais diretamente, para saber em quais pode tentar intervir de maneira construtiva.
O progresso é difícil porque exige ação correta incessante.
O retrocesso é fácil porque não exige nada.
R. Hamer
02/07/06
23:03:32
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